Nunca acreditei (de olhos fechados) no que o whatsapp divulga. Até porque qualquer pessoa pode gravar um vídeo, ou tirar uma foto e dizer que é de determinado lugar e ponto. Não há uma áurea pomposa de credibilidade. Mas desde sábado a rede social têm evidenciado o que acontece aqui, no Espírito Santo.

Na sexta-feira, os policiais militares entraram em greve. A greve já estava sendo anunciada. Eles pedem por aumento salarial. Os pms só voltam quando fizeram acordo. Do governo a gente ouve: o acordo só irá acontecer se os policiais voltarem para as ruas. Êta (?). Pois é... um desencontro bem feio.

O sábado, para mim, foi tranquilo. Mas não para o Estado. Vídeos apareceram nas notificações sobre arrastões na rua da lama, na praia de camburi, e o caos começou a brotar de canto em canto. O que deixou a população em alerta para o dia seguinte. Pensei no filme The Purge. Em que uma noite é o suficiente para todos atacarem a todos e ninguém ser punido pelos crimes. Gostaria de não ter feito essa comparação.

No domingo a noite as notificações eram mais reais porque a pessoa dizia a hora, a data e onde estava, e quem um dia lá esteve reconheceu e sofreu com as imagens. Áudios de pessoas contando o que havia acontecido e pedindo para que ninguém saísse de casa. Nos vídeos, os carros passavam ao lado de corpos. “As facções estão acertando as contas sem cerimônia no centro”, ouvi da amiga da minha irmã. Os hospitais foram fechados. O caos se alastrou pelo Estado, que ironicamente se chama, Espírito Santo. As aulas na UFES, no IFES, no Sesi, Emescam (e outros) foram canceladas na segunda-feira. Avisamos o máximo de pessoas (que não tem whatsapp) para não sair de casa, e mesmo assim elas saíam e familiares foram atrás.

Segunda-feira todas dentro de casa. Um feriado prolongado, não? Não. Durante a noite ouvi tiros e mais tiros. O medo de fechar os olhos escorrendo pela espinha. Mais vídeos de pessoas arrombando lojas. Assaltos e tiros por todo o lado. A tarde ouvi gritos aqui na rua que diziam: moradores não saiam de suas casas, se saírem vão desejar não ter saído. Os ônibus pararam de circular.

Senti o medo que sinto ao sair de casa sozinha aumentar por mil. Hoje é terça-feira, as forças nacionais chegaram ontem. Não sei o que vai acontecer a partir de hoje. Não me sinto segura. Todas as janelas e portas fechadas desde domingo, porque foi quando o terror começou. Os ônibus continuam sem circular porque não há segurança nas ruas. Barulho de helicóptero a todo o tempo.

Enquanto isso, no telejornal Globo News, o caos se espalha em SP. A chuva está terrível. A nuvem é grande. A nuvem está desalojando a população. A nuvem (etc). A jornalista deu mais adjetivos para a nuvem do que você dá para o seu cabelo. O nome disso é enrolação. Ficou 30 minutos falando da chuva. Para falar do Espírito Santo em 2 minutos, ou menos. Não faço a comparação pobre de que deveria ficar o dia inteiro falando daqui e nada da chuva, longe disso. Faço porque como ela mesma disse, a chuva forte em fevereiro/março é normal em SP. Se é normal precisa realmente de uma atenção maior? Além do mais, 158 mortes foram confirmadas no Espírito Santo em um curto período de tempo. E ninguém está nem aí, nem aqui. (O sentimento é esse. Descaso total).


Quarta-feira. Acordo com um desejo de sair casa. De sentir o vento balançando meus cabelos. Sinto que será mais difícil do que nunca. Foram confirmadas 90 mortas desde sábado. *atualizei ali em cima no texto*
Além da desgraça vista no whatsapp (mortes durante a madrugada, tiroteios a luz do dia de ontem sendo espalhados hoje), tem vídeos fazendo graça da situação. Mõe gosta desses vídeos e ri da maioria deles. Por isso estou um pouco tranquila. Porque ela não demonstra desespero. Minha irmã mais velha compartilha o sentimento de impotência comigo e parece que isso basta. Não precisa de mais uma pessoa preocupada em casa. Mõe tá preocupada sim, mas não demonstra tanto quanto eu e minha irmã, isso me equilibra.
Nos telejornais locais foi transmitida uma coletiva de imprensa com o governador. Diz que não há recursos financeiros para pagar o aumento salarial dos militares. Um policial civil passa de carro em carro na frente do walmart e avisa os motoristas que eles também entram em greve a partir de hoje. Um vídeo com muitas pessoas em frente ao walmart faz crer que a loja foi arrombada e saqueada.

A noite um carro de som tocando Imagine de John Lennon passou aqui na rua. Dele, brilhava um letreiro que aparecia nos prédios escrito: sem medo. Foi nesse momento que reparei quantas pessoas estão trancadas dentro de casa. Todo mundo foi para as varadas dos prédios bater palmas e gritas em saudação à atitude. Nisso, um homem na varanda aponta para rua e diz: ladrão ladrão! O homem na rua dá passos para trás como se estivesse sendo interrogado e diz: PÔ, eu não sou ladrão! E todo mundo riu, e lentamente fechamos todas as janelas e portas que levavam às varandas.

Quinta-feira. Nove de fevereiro. Mais um dia dentro de casa. Em confinamento. Ei, eu não fiz nada de errado para estar presa dentro de casa :L
Mais vídeos e relatos de colegas de faculdade e do trabalho que houve tiroteio e muitas mortes nos bairros de cada um. A pergunta que fica nessa manhã é: e os soldados do exército que vieram na terça-feira? Em que lugar eles estão?


Sexta-feira. Uma semana que a greve começou. Minha família foi até o mercado mais próximo para comprar frutas e verduras. Nada que não pudesse esperar. Na verdade, elas queriam sair e qualquer desculpa servia no momento. Eu não saí. Ainda com medo da situação, me aconcheguei em casa e continuei lendo. Elas avisaram que as prateleiras do mercado estavam vazias. Havia fila para entrar, para pagar e para sair. A noite saí e vi que nada tinha voltado a normalidade. Saí para ficar aconchegada em outras paredes que não as minhas. Jornal Nacional. Mais especificamente: Bonner avisa que a greve acabou. Ouço risos. Nunca foi tão difícil de acreditar um jornal antes. Áudios -dos grevistas- avisando que a greve não acabou circularam no whatsapp.

Sábado. A mesma greve começou no Rio de Janeiro. Força nacional em todo lugar do pequeno Espírito Santo.


Domingo. Especulações. Notícias sobre o amanhã. Os ônibus circularão na segunda somente até 21h. As lojas tem horário modificado por causa da confusão, fecham mais cedo do que de costume.

Segunda-feira. Quantos boatos são necessários para parar Vitorinha? Apenas um. O boato de que os ônibus iriam parar de circular às 17 horas fez todas as pessoas que estavam trabalhando sair de seus escritórios (e trabalhos e etc) e irem para casa. Resultado: trânsito infernal em qualquer rua por perto. A cidade parou. Nenhum carro conseguia andar. Sem acidentes. "Tudo normal, só muita gente na rua", o motorista dizia. Demorei uma hora e meia para chegar em casa. Ps.: meu estágio fica a 15 minutos de onde moro.
Tirando isso, e as aulas na UFES serem canceladas hoje e amanhã, acredito que a normalidade esteja chegando aqui. A gente guarda um abraço apertado para quando ela chegar.

Se precisam de uma prévia do que acontece no pedaço de terra entre Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro, vê aqui . Se eu fosse você, não veria.

Seria lindo se fosse uma crônica sobre o caos em um lugar que ninguém nunca ouviu falar. Mas não. É história real, infelizmente. De alguém que está sem sair de casa. Presa por dias inteiros. Peço que você que está lendo ore, reze, mande energias positivas, peça por paz para esse cantinho aqui. Porque eu...


Desejo paz. Em (no)me do Pai, do Filho e do (Espírito Santo). Amém.



Atualizado: Segunda-feira. 17/02/17


Ingrid Lourenço.